Mesmo sendo observado que existia uma simpatia das participantes por essa proposta, parte da coordenação nacional da Marcha desenvolveu uma contra-argumentação, conseguindo propor um acordo: nos Estados onde fosse possível, a ação seria realizada.
Avalio que, em função da falta de apoio da coordenação, em termos de articulação nacional das feministas para a construção da proposta de confronto radical com a estrutura do Estado, a proposta foi substituída pela realização de atos em frente às representações locais das instituições financeiras, para as quais se dirigia o texto do abaixo-assinado mundial. Nas cidades onde não existiam, as manifestações foram marcadas pelo espontaneísmo criativo do feminismo .
O segundo momento da pesquisa em que se evidenciou a contradição entre as duas dimensões da autonomia : o individual e o coletivo, foi na passeata pelo direito ao aborto, ocorrida no FSM, em 2002.
Esse episódio originou-se da convocatória das feministas do “planeta fêmea” às feministas brasileiras da Marcha, decididas a não participar das atividades promovidas por esse grupo.
Entretanto, o dilema da historicidade veio à tona: como ficar de fora de uma manifestação em defesa de um dos temas mais caros ao feminismo? Por outro lado, como participar sem dar “representatividade” ao campo que se constitui como antítese do que se defende enquanto feminismo de esquerda/socialista ?
Após uma rápida conversa entre algumas coordenadoras da Marcha, decidiu-se organizar um cortejo na manifestação. Durante todo o trajeto, ficou visível a divisão das alas. Abrindo a manifestação estavam os grupos de teatros, bonecos e as participantes do planeta fêmea em seguida, as feministas da Marcha.
Destaco, a partir dos dois episódios relatados, que a autonomia, enquanto exercício da autodesignação, encontra-se bloqueada em sua existência criativa (SARTRE :1996). Pois, no processo de sua construção coletiva, depara-se com conflitualidades internas, geradas pela ausência de estruturas democráticas de debates e de decisões que possibilitem “a quebra das hierarquias estabelecidas pelo status quo ”, como afirmava Rosa Luxemburg, citada por Tragtemberg (1991 : 44).
Nesse sentido, destaco as críticas aos modelos de organização feminista. De um lado, há a relação ONGs, agências e movimento, na qual este permanece em terceira dimensão de poder e as ONGs confundem o papel de assessoria e representatividade.
De outro, tem-se a relação ONGs/ movimento de mulheres/ movimentos sociais, na qual, apesar do movimento de mulheres situar-se no campo da mediação dos interesses, esse é impulsionado, em alguns momentos, a desenvolver ações e reivindicações políticas, que lhe parecem exteriores. Ou não se constituem como campo de interesse imediato e orgânico, surgido de suas experiências e tradições organizativas de mulheres.
Essas críticas precisam ser enfrentadas para a superação dos impasses de estratégias do feminismo no que se refere a se constituir como uma proposta utópica de um sujeito livre.
O anseio pela constituição de um coletivo que consiga superar os impasses criados pela histórica composição dos campos no interior do feminismo é evidente nos seguintes trechos de relatórios de encontros:
Reconhecer que na prática política feminista nossas opções e elaborações estão em interação com as diferentes interpretações da realidade, quer dizer, que não só nos diferenciamos por nossas práticas, mas, pela forma que concebemos a utopia transformadora do conjunto da sociedade. (Relatório do V Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, 1990: 42)
Ou ainda posso destacar:
A política feminista [...] é uma proposta que tem uma construção democrática como terreno fundamental para sua expansão e desenvolvimento, em confronto aberto com as dinâmicas de exclusão e discriminação, em conexão e solidariedade com o conjunto de lutas e expressões da resistência frente aos traços patriarcais, excludentes e autoritários, de toda nossa sociedade e de todos nossos estados. (Relatório do VII Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, 1996, 27).
Concluo minhas reflexões, deste texto, defendendo que o feminismo pode ser caracterizado como coletivo total, ao desenvolver mecanismos de participação direta e representativa em suas instâncias de decisões, construindo políticas que realizem a maior potencialidade do indivíduo: a sua condição de sujeito.
O feminismo como coletivo total proporciona, portanto, a inclusão horizontalizada das demandas específicas que compõem o sujeito “mulheres”, tendo como princípio fundador a superação de sua reificação, apresentando historicamente as mulheres em sua diversidade.
Em tempos de adversidades, como o que enfrentamos na atualidade, é fundamental o alargamento dos espaços de democracia de forma que a totalidade, do sujeito feminista, expresse o reconhecimento da diversidade das opressões e na sua vinculação com um projeto de liberdade e emancipação, consolide a potencialidade criativa das mulheres, como sujeito da história e como construtoras de uma nova ordem.
Referências Bibliográficas