Home  São Paulo (Brasil), 9 a 12 de outubro de 2005

Entrar

“Feminismo contra o etnocentrismo para uma América Latina Democrática”

Por Mônica Maia e Jalmelice Luz

No terceiro dia de atividades do 10º Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, foram realizadas quatro discussões simultâneas, em auditórios lotados: os Diálogos Complexos “Feminismo contra o etnocentrismo para uma América Latina Democrática”.

Na sala Paineira, as debatedoras foram Cecília Olea (Peru) e Martha Sanchéz (México). Cecília Olea apontou que as desigualdades não se originam de uma só situação, mas de uma multiplicidade de causas. Para ela, o feminismo nasce da alteridade, da contestação do espaço público construído para os homens. Entretanto, o feminismo da segunda onda era um “feminismo branco e de classe média”, e teve que sofrer mudanças para acomodar as outras situações nas quais vivem as mulheres. Cecília propôs a reflexão sobre o trabalho doméstico: “se estamos tranqüilas aqui, quem está se incumbindo do trabalho doméstico?”.

Para Martha, o feminismo “não teve êxito em agregar outras mulheres à sua agenda”, dando como exemplo as mulheres indígenas. Martha relembrou ainda que o fato de políticas públicas tratarem os deferentes de maneira igual apenas aumenta as desigualdades. Para Martha, há diferenças entre as agendas feministas e as agendas das mulheres indígenas, como por exemplo, a discussão sobre territorialidade e recursos naturais.

Nos debates com as participantes, foram levantadas diversas questões que dificultam a superação do etnocentrismo. Entre elas, destacamos: a dominação de classe se expressa pra além dos fatores econômicos; e não é suficiente nos reconhecermos como diversas e diferentes, para o diálogo, é necessário reconhecer a outra como diversa.

Na sala Cerejeira, a debatedora Susel Paredes Pique da organização Flora Tristan, do Peru, que desenvolve trabalhos junto às mulheres indígenas e amazônicas na região, afirmou que o feminismo é uma ferramenta importante para a interrelação entre as diferentes culturas numa perspectiva de mudança da vida dessas mulheres. Ela relatou que a situação das mulheres no Peru é de profunda desigualdade, destacadamente em relação às indígenas e amazônicas, cujas culturas não são consideradas. O etnocentrismo se mostra na sua forma mais discriminatória, diante da falta de políticas públicas e legislação que incluam essas mulheres.

O papel das feministas e do feminismo como movimento formulador de cultura, segundo Susel Paredes, é uma “ferramenta excelente” para a convivência entre as diversas culturas. O feminismo, conforme afirmou, trava uma luta para superar barreiras como o mito de que irá destruir culturas, colocar as mulheres indígenas contra os homens e destruir a família. O importante, disse, é que haja o respeito às diferenças culturais e a garantia de uma relação democrática.

A debatedora brasileira Lúcia Xavier, integrante do Grupo Criola, fez várias reflexões sobre os caminhos a serem tomados pelo feminismo que, segundo ela, possui várias vertentes e formas de pensamento, diante de sua raiz etnocêntrica que tem como padrão a cultura branca, européia, urbana e masculina. Disse que não há como manter um processo multiculturalista e buscar o interculturalismo se não houver respeito pela matriz cultural de cada grupo ou povo. As mulheres negras, sublinhou, têm sua matriz cultural dentro do feminismo que deve ser respeitada. Lúcia Xavier observou que o feminismo não resguarda as feministas de produzirem relações anti-democráticas. Mas, aponta que caminho é a compreensão da mulher negra, indígena, na sua dimensão humana.


Random image

Esta página foi feita com o Software Livre Drupal em parceria com o Projeto Software Livre Mulheres.