Por: Ana Veloso, da equipe de redatoras)
Construir um espaço de reflexão para reunir lésbicas feministas, radicais, autônomas, revolucionárias e que lutam contra o capitalismo e o patriarcado foi um dos desafios levantados pelas participantes da oficina “El Lesbianismo feminista de Latinoamérica y la política que nos urge”.
O encontro (na tarde desta segunda-feira, 10), reuniu cerca de 200 mulheres lésbicas e feministas presentes no 10º Encontro. Em pauta, temas como autonomia, visibilidade, violência entre lésbicas, bissexualidade e o impacto causado pelas opressões de classe, gênero, raça/etnia e orientação sexual no cotidiano de feministas que se relacionam afetivo-sexualmente com outras mulheres.
Mais do que responder a indagações teóricas e históricas, a oficina lançou reflexões para o aprofundamento das militantes, talvez para politizar a discussão em torno de questões como: qual o fio condutor da luta? O que pode unir as lésbicas feministas sem desconsiderar suas pluralidades? Como organizar um movimento independente do Estado e do financiamento de agências internacionais que, por vezes, acabam impondo suas próprias agendas? Qual o projeto do movimento feminista para as lésbicas das camadas mais pobres da América Latina? Como continuar tendo incidência política como sujeito coletivo - reconhecido dentro do feminismo e nos ambientes de articulação LGBTT? Como sensibilizar outras lésbicas que ainda vivenciam sua sexualidade restrita à individualidade de suas casas e guetos, distantes da causa coletiva?
São muitos os dilemas. No que diz respeito à construção do próprio movimento, as lésbicas feministas direcionaram suas críticas para práticas de disputa entre grupos e para o personalismo de algumas lideranças que atuam na contramão de princípios feministas como ética, participação e horizontalidade. Engana-se quem pensa que tais contradições estão enfraquecendo o movimento. Se, por um lado, põem em relevo as dificuldades, por outro, evidenciam sua efervescência, já que são incoerências apontadas por ativistas recém-chegadas a um movimento que, pelo menos na oficina, demonstra muito fôlego e uma renovação.
Na fala das participantes, há o reconhecimento de que, no contexto atual, existe a tentativa de demarcação de um campo político de ação das lésbicas que defendem o fim do patriarcado na América Latina. Elas, que desacreditam na possibilidade da existência da democracia no sistema neoliberal, duvidam que a transformação social poderá se dar apenas a partir dos partidos políticos e por dentro das estruturas dos Estados. Neste ponto não houve consenso entre a presença ou não de feministas lésbicas em órgãos do Estado. Há as que afirmam que é possível exercer sua autonomia em qualquer espaço, sem abrir mão da luta, nem da ideologia.
Mas todas pretendem provocar o movimento feminista a incluir, ainda mais, em sua agenda, a luta contra a sexualidade compulsória e o enfrentamento às desigualdades acentuadas pelo modo de produção capitalista. Em meio a muitas controvérsias e tensões em torno da definição de um foco, ou fio condutor, o discurso da maior parte das ativistas demonstrou o desejo de ir além da pauta da visibilidade lésbica, de modo a não restringir a luta do movimento a uma causa isolada: a visibilidade pela visibilidade, sem interlocução com outros sujeitos coletivos.
Como previa a comissão organizadora do 10º Encontro, os debates entre lésbicas e feministas tomam grandes proporções. Nesta terça (11), acontecem os Diálogos Complexos: Feminismo e Lesbianidade – Sexualidades e Democracia, em quatro espaços de discussão, e ainda uma oficina da Liga Brasileira de Lésbica.