Home  São Paulo (Brasil), 9 a 12 de outubro de 2005

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Radicalizar o feminismo para uma outra democracia

Por Denise Gomide e Fernanda Grigolin

“Feminismo e democracia”: o eixo central do 10º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe foi o tema do painel de abertura do evento, ocorrido hoje, dia 10 de outubro. Estiveram presentes 1.250 mulheres – de diferentes raças, etnias e classes sociais – ,de 28 países da América Latina e Caribe, bem como militantes de países europeus e dos Estados Unidos.

E muitos desafios foram apontados pelas análises das três palestrantes da mesa, coordenada por Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão e integrante da Comissão Organizadora do evento.

Presidenta do Partido Ação Cidadã, Epsy Campbell, da Costa Rica, afirmou não ter dúvidas de que a situação das mulheres no mundo tenha mudado drasticamente nas últimas décadas. “Mas falo das ‘mulheres’ em geral, porque quando cruzamos características identitárias como raça, etnia e classe social esta drástica mudança não é tão pronunciada”.

Para ela, as democracias latino-americanas excluem milhares de pessoas. “Existe uma real democracia quando mais de 50% da população não está representada nas estruturas políticas que definem o presente e o futuro dos países?”, questionou. Para ela, a democracia é muito mais do que o eleitoral e implica necessariamente que a população possa estar representada na sua diversidade. Com algumas questões, Epsy propôs usar as regras “do jogo” para mudá-las, chamando as mulheres para criar uma nova “política na política”, na qual respeito e solidariedade devem ser princípios fundamentais.

Militante dos movimentos de feministas lésbicas e de afrodescendentes da República Dominicana, Ochy Curiel sustentou que a “democracia é uma forma de organização social que deve ser questionada, abolida e mudada por outras formas de participação”. Segundo ela, a democracia não é a única política possível, já que está inserida na lógica das instituições patriarcais. Ochy acredita que se deve criar outra lógica. “Tem que subverter, desobedecer e inventar”.

Partindo do conceito de democracia, a brasileira Maria Betânia Ávila, do SOS Corpo e da Articulação de Mulheres Brasileiras, foi enfática: o feminismo tem como questão, desde a sua origem, as mulheres como parte do povo que governa. Isto porque a constituição da esfera política foi historicamente realizada com o domínio dos homens – relacionado à dominação sobre as mulheres no espaço da vida privada. “O feminismo como movimento político já nasce confrontando a relação entre liberdade pública e dominação privada, o que exige radicalizar e pensar a democracia não só como um sistema político, mas como uma forma própria da vida social”.

Na sua opinião, instituições como a igreja, a família e o Estado alargam a dominação sobre a mulher. Por isso, Betânia entende que a radicalização no feminismo implica viver um conflito interno, enfrentando democraticamente as várias tendências e proposições do movimento e, ao mesmo tempo, produzindo conflito na sociedade em torno das suas proposições.

Após a apresentação das debatedoras, as participantes se dividiram em 14 grupos – como mulheres jovens, negras, lésbicas – para discutir, com base nas provocações da mesa, o eixo central do 10º Encontro.

Leia a íntegra dos textos das debatedoras:
"Las mujeres, la nueva politica y el buen gobierno: profundizando la democracia", por Epsy Campbell

Leia também alguns comentários das participantes sobre o Painel


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