Home  São Paulo, Brésil - 9 au 12 octobre 2005

Ouverture de session

O feminismo ainda não assumiu a luta anti-racista

Por Marisa Sanematsu

O primeiro Diálogo Complexo realizado no Encontro teve o título: Feminismo e estratégias para o enfrentamento do racismo em uma América Latina democrática.

A proposta dos Diálogos Complexos é realizar uma atividade dinâmica, em formato de entrevista. São sempre quatro sessões simultâneas em que se debate o mesmo tema sob condução de uma mediadora, que faz perguntas a duas debatedoras. As participantes também formulam questões às debatedoras. A idéia é que as duas debatedoras dêem respostas diretas e curtas, permitindo um diálogo ágil e instigante.

Na sala Jequitibá, estavam as debatedoras Nirvana González (Porto Rico) e Myriam Merlet (Haiti). A mediadora Schuma Schumaher (Brasil) iniciou o Diálogo lembrando que houve um tempo em que o feminismo, que dizia “somos todos iguais”, não percebia as diferenças. “Nossa companheiras negras cobraram do feminismo uma posição sobre a questão do racismo. Não basta se dizer anti-racista; é preciso que o feminismo não aceite o racismo em nenhum contexto”, afirmou Schuma.

A primeira pergunta colocada pela mediadora para as duas debatedoras foi: “Quais são as tensões no interior do racismo a respeito da luta anti-racista?”

Nirvana González iniciou sua participação declarando: “Todas somos racistas”. Para a porto-riquenha, à medida que assumimos isso, que todas nós também internalizamos o racismo, será possível agir contra o racismo. “O maior problema está em nós mesmas, no âmbito do movimento. Precisamos escutar o que nossas companheiras têm a dizer”, disse Nirvana, que apontou o caso brasileiro como um exemplo de como o feminismo pode aprender com o movimento de mulheres negras.

Para Myriam Merlet, o tema do racismo chegou para questionar a relação do feminismo com o poder. “Sim, o feminismo deve abordar o problema e é importante que esse diálogo aconteça entre as diferentes correntes feministas”, afirmou Myriam.

Continuando o diálogo, Schuma Schumaher perguntou: “Os feminismos, ou as diferentes correntes políticas dos movimentos feministas, aceitam a luta anti-racista?”

Para Nirvana, todos os feminismos que buscam a democracia, a liberdade e a participação cidadã das mulheres, seus direitos sexuais e reprodutivos, devem se comprometer com a criação de condições para a erradicação do racismo. “O racismo é o exemplo mais dramático das discriminações”, disse Nirvana, para quem é preciso criar condições para que todas tenham todos os direitos.

A haitiana Myriam Merlet lembrou que o feminismo se apresenta como uma reflexão sobre o poder. “A questão da interseção de todas as formas de opressão deve estar presente na nossa análise”, ponderou Myriam.

Como última questão: “De que maneira o feminismo enfrenta a questão das políticas de exclusão?”

“Nós, feministas, estamos sempre falando sobre as políticas de exclusão; falamos sobre a violência contra as mulheres, sobre os fundamentalismos”, declarou Nirvana. Para ela, o feminismo tem que continuar denunciando, criando espaços como o deste Diálogo, mas que sejam não apenas espaços de reflexão, mas que se traduzam em ações concretas em direção à mudança.

Myriam Merlet afirmou que considera importante nesse debate sobre o racismo que se introduza a questão do colonialismo. “É chocante ver o que o colonialismo fez de um país como a Índia, que tem uma cultura tão rica”. Myriam trouxe para o debate o caso do Haiti, que também enfrentou e enfrenta até hoje os problemas decorrentes do colonialismo. “No Haiti, todos somos negros. Mas quando a gente adentra essa questão, o branco é belo e rico e o negro é sempre sujo e pobre”, disse Myriam, que destacou que o país vive hoje uma outra ocupação estrangeira, pelas tropas da ONU.

Após essa fala, Nirvana González pediu novamente a palavra para dizer que: “quando se falou sobre o colonialismo, fiquei muito emocionada, porque vivo esse colonialismo em Porto Rico”. Para Nirvana, embora o racismo seja uma questão muito complexa, o quadro fica muito pior quando se associa ao colonialismo.

Entre as questões colocadas pelas participantes da platéia para as debatedoras estavam: a invisibilidade dos povos indígenas; o difícil trabalho de sensibilização das jovens sobre o racismo; a necessidade de uma democratização do conhecimento; e o fato de o feminismo ainda não haver assumido a luta anti-racista. Neste último sentido, a participante parabenizou a organização do evento pela realização desse Diálogo sobre racismo.

No debate, houve diversas manifestações destacando a questão da reparação e da situação que vive o Haiti. “Como disse Caetano, ‘o Haiti é aqui’”, afirmou uma das feministas presentes. Nirvana González propôs que, do 10º Encontro, saísse algum tipo de manifestação de apoio ao Haiti. Uma das presentes pediu que fosse feita uma moção pela retiradas das tropas estrangeiras que ocupam o país.


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