Maria Betânia Ávila
(Eu sou Betânia Ávila, do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, sou da Articulação de Mulheres Brasileiras, da Articulação Feminista Marcosur. Sou do Nordeste e vivo no Nordeste do Brasil. Este encontro é, para mim, um momento tanto de alegria, como de angústia. A angústia do desejo de transformação do mundo, porque estar dentro do Feminismo é conviver com a angústia do desejo da transformação do mundo).
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Democracia: governo pelo povo ou governo pelo poder do povo. Quando foi, de fato, que o povo governou? Para o feminismo se coloca, desde a sua origem, a questão sobre as mulheres como parte do povo que governa.
A constituição da esfera da política foi historicamente realizada como um domínio dos homens. A política como domínio dos homens está relacionada a uma dominação sobre as mulheres no espaço da vida privada; o feminismo como movimento político já nasce confrontando a relação entre liberdade pública e dominação privada, o que já traz uma exigência de radicalidade no sentido de pensar a
Democracia não só como um sistema político, mas como uma forma própria de organização da vida social.
A organização política do feminismo vem da revolta das mulheres forjada em uma experiência histórica concreta, de relações sociais de desigualdade. A práxis feminista é ação política e pensamento crítico. Portanto, a radicalidade da ação está relacionada à reinvenção da prática política e à produção teórica-analítica feminista nos vários campos do saber. Para a construção do sujeito, conhecer e agir são dimensões inseparáveis. A produção de saber é também uma esfera da dominação masculina.
Dominação simbólica diretamente voltada para reprodução da dominação e da exploração material – patriarcal e capitalista.
Há, no movimento feminista, uma diversidade de organizações e lutas, mas há também desigualdade entre as mulheres que o compõe. Mulheres de classes desiguais; mulheres de raças diferentes e transformadas historicamente em desigualdades; mulheres negras; mulheres indígenas e rurais; trabalhadoras domésticas, que constituem majoritariamente a classe das mulheres pobres; desigualdades entrelaçadas de classe, de raça e gênero; mulheres lésbicas, que radicalizam contra as heranças do padrão heterossexual dominante. Mulheres portadoras de necessidades especiais.Mulheres de várias gerações que trazem os conflitos inerentes entre transmissão e reinvenção.
Radicalizar é viver o conflito interno no movimento, enfrentando democraticamente as várias tendências e proposições e, ao mesmo tempo, produzir conflito na sociedade em torno das suas proposições. É ser referência para outras mulheres fora do espaço da sua própria organização.
A radicalização do feminismo diz respeito à sua própria forma de organização e à sua ação no mundo. Isto é para dentro e para fora. Se o movimento é radical a sua organização já exige de imediato os meios de enfrentar as contradições das mulheres na vida cotidiana para exercer o direito de ser sujeito político – já que é uma conquista do feminismo a instituição das mulheres como sujeito. Para se pensar em uma proposta radical de luta feminista, é importante pensar no acesso ao espaço de luta. Caso contrário, a desigualdade social e as discriminações se transformam perversamente em um déficit do sujeito.
Há bloqueios no cotidiano para as mulheres se movimentarem entre as esferas pública e privada: a violência sexual e doméstica, o preconceito, a dupla jornada e a falta de tempo, entre outros.
O trabalho das mulheres nas esferas produtiva e reprodutiva está marcado pela desigualdade da divisão sexual do trabalho. Precisamos responder teoricamente e politicamente à transformação dos fundamentos econômicos dessa divisão e das relações sociais por ela produzida.
A mercantilização do corpo das mulheres, do prazer e a banalização da exploração sexual são uma dimensão importante da globalização econômica. As mulheres são consideradas alvos estratégicos do consumismo. E o apelo sexual é o elemento central do método. A indústria cultural, por meio dos meios mais diversos de comunicação, produz cotidianamente as mais enlouquecidas formas de alienação e capturação de todas as propostas de liberdade e igualdade.
É também no terreno da sexualidade que a força repressiva das instituições religiosas e fundamentalistas têm produzido controle e abusos em nome de princípios transcendentes.
A ilegalidade e clandestinidade do aborto sempre serviram aos interesses mercantis e, ao mesmo tempo, ao poder das igrejas na dominação sobre a vida das mulheres.
Na América Latina e no Caribe, o poder do Estado tem historicamente estado na mão dos homens que, em geral, ou são ou estão ligados aos senhores da terra, da indústria, do capital financeiro, subordinados e aliados dos senhores do Norte. O patrimonialismo, que teve grande peso na conformação desses Estados, a violência no campo, a violência sexual, o racismo, a homofobia, a violência sobre o povo indígena, a concentração de renda e seu reverso, a pobreza, são marcas que persistem de tempos imemoriais.
O que o feminismo tem a ver com tudo isso?
Democratização da vida social deve ser portanto radical em relação ao capitalismo, ao patriarcado, ao racismo, à heterossexualidade como modelo hegemônico, às formas de gerir o poder político, as instituições que sustentam a dominação e a exploração: igreja, família, Estado.
As mulheres, sobretudo negras e indígenas, são a maioria dos povos pobres da América Central, América Sul e do Caribe. Se o feminismo na América Latina e no Caribe não enfrenta a pobreza das mulheres, não tem como se radicalizar. Se não enfrenta a democratização da terra e o acesso das mulheres a este direito, não há radicalidade. Se não enfrenta o direito ao nosso próprio corpo, não há radicalidade.
O feminismo tem que se popularizar, se estender por todos os cantos onde as mulheres estão sendo exploradas e violentadas criando raízes como uma organização política voltada para a transformação social.
Qual a capacidade do movimento feminista reconhecer todas as expressões de lutas cotidianas de milhares de mulheres que produzem mudanças nas comunidades onde vivem, nas instituições onde trabalham, que se definem como feministas, ou não, e que forjam um amplo movimento de mulheres?
Como o feminismo se relaciona com essa movimentação de mulheres? Essa é uma questão que deve ser posta como uma relação dialética entre o feminismo e movimento de mulheres no geral.
Radicalizar é também, para mim, lutar contra a hegemonia de uma visão liberal de democracia, como se democracia liberal fosse a única experiência histórica e definição possível de democracia. A radicalidade passa também pela não aceitação da idéia de que os fins justificam os meios.
Quais as formas de democracia política que estamos forjando? Teorizando, praticando, defendo, alterando? Representativa, participativa, democracia direta. Como democratizar o sistema de poder político? Como o feminismo tem enfrentado de fato o sistema de poder político, produzido crítica, confronto? Como se coloca agora para o movimento feminista a questão do poder?
Enfrentar esse sistema, no qual as estruturas que reproduzem as desigualdades se imbricam, requer uma capacidade imensa de organização, de solidariedade e generosidade no interior de nossas articulações, bem como uma capacidade crítica para combater em nós, também, as formas de agir herdadas da tradição desse sistema que combatemos e das tradições políticas autoritárias. Entre a fragmentação atomizada e os modelos totalitários, temos que inventar processos de democracia radical, que sejam capazes de alterar a ordem social vigente, e também as formas de fazer política. Não vamos incorrer nos riscos de buscar uma totalidade, de instaurar modelos fechados de futuro.
A capacidade de enfrentar democraticamente, por meio do diálogo, as diferenças e os conflitos, é um desafio para organização do feminismo. Negar o conflito só fragiliza a luta e diminui a capacidade de organizar uma resistência coletiva. A democracia política radical exige uma nova cultura política. É preciso repensar os métodos feministas de construir autonomia, relações não hierárquicas, dentro do movimento e em relação aos outros movimentos, reafirmando sempre a pluralidade dos sujeitos. O Fórum Social Mundial nos coloca um grande desafio, neste sentido.
Diante dos desafios que temos, a mobilização e a consciência crítica são elementos estratégicos. Por isso, a organização política, a socialização dos saberes e os processos educativos voltados para a formação de sujeitos são indissociáveis como método para uma práxis transformadora. Há uma relação dialética entre os processos coletivos de ação política transformadora e as experiências alternativas, as “micro-revoltas”, as aquisições de direitos e a luta dentro das instituições que na vida cotidiana forjam novas experiências.
Temos que fortalecer as bases organizacionais de um internacionalismo crítico e ativo, capaz de se opor verdadeiramente ao neoliberalismo, ao terror e à guerra, à mercantilização da vida e dos bens comuns da natureza, ao fundamentalismo. Um internacionalismo que atravesse desde a luta na aldeia, a mais recôndita, até os grandes centros urbanos.
Recuperar a utopia – como fratura permanente com o que há. Utopia nos tira do alinhamento ao que aí está. Utopia como abertura para transformar e não como representação de um modelo.
E como diz Cristina Buarque: “é necessário mostrar claramente o que rejeitamos”. Expressar com determinação o nosso confronto.
O momento da ação política transformadora é também o da invenção de novas relações, de construção de subjetividade e, portanto, da reinvenção coletiva e da reinvenção de nós mesmas.