Home  São Paulo (Brasil), 9 a 12 de octubre de 2005

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Feminismo em organizações populares

Debater as estratégias e as condições para popularizar o feminismo foi o principal objetivo da oficina promovida pelas feministas brasileiras vinculadas ao SOS Corpo - Instituto Feminista para a Democracia (dia 11, na sala Peroba).

Todo o debate partiu da pergunta: "Quais os desafios que a situação de pobreza e de extrema desigualdade (gênero, classe, raça) coloca para o feminismo? Na perspectiva das educadoras do SOS Corpo, a resposta a esta questão se articula com um enorme desafio de sobrevivência: tanto a sobrevivência das feministas de grupos populares, como a de suas organizações. Por isso, também é preciso buscar entender como as nossas ações (de feministas de classe média ou ligadas a organizações consolidadas) com esses grupos populares de mulheres e, ainda, as ações desses próprios grupos têm contribuído para a construção do feminismo.

Desafios

A riqueza resultante dos debates indicou, entre os desafios, a necessidade de o feminismo - como projeto político -'repensar' a desigualdade de gênero, dedicando-se, cada vez mais, ao enfrentamento das desigualdades econômicas. Isso inclui pensar a dinâmica dos diversos espaços de construção do feminismo, a exemplo do próprio encontro feminista latino-americano e caribenho, no qual várias feministas de grupos populares presentes na oficina se sentiram discriminadas.

Como as feministas ouvem as mulheres da classe popular, ao discutirem as questões colocadas hoje pelo feminismo? Nas trocas de experiências durante a oficina, os relatos das feministas de grupo populares destacaram: "o movimento popular não pode ser apenas objeto de pesquisa das feministas"; "o feminismo precisa fazer um diálogo direto com os grupos populares de mulheres" e tudo isso "só pode ser feito se as feministas estiverem dispostas a aprender e a propor, dentro de um processo de construção coletiva, sem imposição", considerando inclusive as propostas ligadas ao campo da economia solidária, da geração de trabalho e renda para as mulheres.

O debate revelou que é preciso deixar de dizer 'as mulheres'. Precisamos dizer: 'nós mulheres', seja qual for o contexto de nosso discurso.

Num clima de muita emoção entre as participantes, a oficina realçou o quanto as mulheres de grupos populares se identificam com o feminismo. Em encontros promovidos pelas feministas desses grupos é freqüente se ouvir: "Se feminismo é isso, nós somos feministas, já éramos feministas sem saber".

Afirmou-se ainda na oficina que a grande diferença entre as feministas acadêmicas e as populares são os termos das falas e não as questões que trazem a partir de suas trajetórias no âmbito privado e público.
Nas conversas sobre o cotidiano de todas as feministas resgatou-se que na grande maioria das vezes, exceto em alguns poucos casos, para qualquer mulher participar do movimento feminista é preciso que uma outra mulher assuma sua casa, ou seja, o seu trabalho reprodutivo.

Mas quando se trata de uma mulher de grupo popular a situação é assim: se ela tem emprego, não tem tempo de participar do movimento; se está desempregada, vive a obrigação social do trabalho doméstico e fica sem dinheiro para sair de casa e participar das ações do movimento.

Propostas

Entre as propostas saídas da oficina, a intenção de inserir as discussões do feminismo em grupos populares de mulheres e também em grupos mistos, sabendo-se do desafio de conectar as proposições feministas a contextos onde as pessoas querem muito falar de renda ou de saneamento, por exemplo. Além disso, foram citadas as propostas de estimular a educação formal e a fala pública das feministas de grupos populares; garantir o acesso dessas feministas a espaços de controle social, desenvolver metodologias participativas no movimento feminista e ampliar, no universo do feminismo, as discussões sobre economia.

Participaram da oficina cerca de 150 feministas presentes no 10º Encontro. Nas discussões, ficaram especialmente expostos os contextos de Santiago do Chile, da Zona da Mata de Pernambuco e das periferias de São Paulo e Salvador (Brasil).

Ao final, ficou a certeza de que "o feminismo ajuda a compreender as raízes dos problemas e a construir o movimento político", mas é preciso desenvolver estratégias de luta anti-capitalistas e contra o patriarcado que se articulem com a luta por direitos básicos.

É preciso dar visibilidade às formas de luta e resistência das mulheres, construir e fortalecer espaços autônomos do movimento de mulheres, garantir espaços de formação política e, finalmente, reconhecer e buscar enfrentar os desafios de realizar o feminismo em situações de extrema desigualdade. O feminismo popular já está ocorrendo e as feministas de grupos populares, majoritariamente negras, demonstraram isso nessa oficina.


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